domingo, 29 de septiembre de 2013

Ditadura Civil-Militar Nunca Mais!

Lutei como podia, joguei a latinha da seringa no chão, mas um outro segurou-me e o enfermeiro aplicou a injeção na minha coxa. O torturador zombava: ‘Esse leitinho o nenê não vai ter mais’. ‘E se não melhorar, vai para o barranco, porque aqui ninguém fica doente.’ Esse foi o começo da pior parte. Passaram a ameaçar buscar meu filho. ‘Vamos quebrar a perna’, dizia um. ‘Queimar com cigarro’, dizia outro”. (Rose Nogueira, ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), era jornalista quando foi presa em 4 de novembro de 1969, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde é jornalista e defensora dos direitos humanos.).
No último domingo, acompanhando os alunos do curso de licenciatura em História e Pedagogia das Faculdades Integradas Maria Imaculada (FIMI), estivemos no Memorial da Resistência, antigo prédio do DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) nas imediações da Estação da Luz em São Paulo, que funcionou entre 1940 e 1983, quando foi extinto. O objetivo desse Memorial é preservar referências das memórias da resistência e da repressão política no período republicano brasileiro.
Pelo bem da memória nacional, o Memorial não nos deixa esquecer o que foi a Ditadura Militar, ou como já se sabe, a Ditadura Civil-Militar no Brasil, dado o colaboracionismo de setores da sociedade civil, inclusive empresariais. O medo da elite conservadora de perder o controle do Estado e seu poder econômico diante das reformas sociais levou-a ao estabelecimento de um pacto civil-militar contra a democracia. Os responsáveis por esse acordo até hoje procuram silenciar diante das atrocidades cometidas por um Estado autoritário e truculento que cometeu inúmeros crimes contra a humanidade, dentre eles a tortura e o assassinato indiscriminado de cidadãos livres que, simplesmente, desejavam continuar usufruindo de seus direitos civis e lutavam contra a desigualdade social. Afinal, as reformas de base propostas pelo presidente João Goulart, pretendiam a ampliação do acesso ao ensino público e, inclusive, o combate ao latifúndio e suas várias formas de improdutividade e exploração da mão de obra através de um programa de reforma agrária. O golpe de 1° de Abril, data, por si só, bastante elucidativa, depôs não só o presidente, mas todo o povo do poder, condenando a soberania popular ao ostracismo.
Que temos problemas sociais e violência no Brasil é fato, porém temos certeza que a volta de uma ditadura com o intuito de “manter a ordem e fazer cumprir as leis” só instituiria uma violência indiscriminada por parte do governo que cessaria com os direitos de todos os cidadãos. Nossas dificuldades já existiam na ditadura, mas eram mascaradas por uma imprensa controlada pela censura absurda, que chegava até às obras de arte. Nesse momento, precisamos ampliar e aprofundar nossa democracia, enferrujada e prejudicada por décadas de anulação do espaço público e de exercício da cidadania e da política. É imprescindível investir recursos econômicos e esforços pedagógicos na democratização e universalização de fato da educação pública. Precisamos combater urgentemente os resquícios do ensino tecnicista implantado pela ditadura. Voltado apenas para atender necessidades imediatistas de mercado, esse sistema educacional autoritário ainda faz parte de muitas propostas de ensino e é incapaz de contribuir para a formação de cidadãos plenamente atuantes no espaço público e democrático.
A recente atuação da Comissão da Verdade no Brasil é parte dos esforços para sabermos mais detalhes sobre o trágico período da ditadura militar, “esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de graves violações de direitos humanos”. A mobilização da sociedade civil contra os resquícios da ditadura é indispensável para a implementação de uma democracia cada vez mais radical, plenamente política e capaz de promover a igualdade econômica e social de todos os cidadãos.
Visitar as antigas celas do DEOPS reconstituídas pelo Memorial da Resistência e ouvir os depoimentos daqueles que passaram dias, meses e até anos de terror, tortura física e psicológica... É de sensibilizar qualquer um que tenha um pouco de conhecimento. Avaliar criticamente os atos cometidos pela ditadura pode contribuir para a construção de um processo democrático, porque quanto mais radical for a nossa democracia, maior a qualidade de vida para todos os cidadãos.
Por Samantha Lodi (professora nas FIMI, presidente da Casa do Escritor e membro da Academia Guaçuana de Letras), e Glauber Biazo (professor dos cursos de História e Pedagogia nas Faculdades Integradas Maria Imaculada -FIMI-). Em Portal Mogi-Guacu, 27 de setembro de 2013

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