sábado, 9 de junio de 2012

Argentina: batendo panelas. No escuro, claro

Nesses dias de um frio que avança, impávido e impune, termômetro abaixo, em algumas zonas restritas de Buenos Aires têm acontecido panelaços. São pessoas de classe média alta, mescladas com uns poucos legítimos representantes da mais enfática oligarquia, batendo panelas, caçarolas e frigideiras, protestando contra a corrupção, que dizem endêmica; a inflação, que dizem – e é - galopante; em defesa do livre direito de ir e vir, que dizem ameaçadíssimo; e, num resumo da verdade, contra a suspensão da venda de dólares.

A queixa mais insólita que ouvi se refere à ameaça sobre o direito constitucional de ir e vir. A senhora cinqüentona, de casaco azul marinho de boa lã sobre um cashmere cinza-chumbo, com os cabelos tingidos de um louro recatado, golpeia furiosamente uma panela reluzente. E explica seu protesto: “O governo me impede de me movimentar livremente. Se não posso comprar dólares, como posso programar minhas férias?”.

Até mesmo os críticos mais ferrenhos do governo da presidente Cristina Fernández de Kirchner reconhecem que os panelaços recentes reuniram pouca gente. Acreditam, porém, que o movimento vai crescer. Prometem manifestações na Plaza de Mayo, diante da Casa Rosada e pertinho da zona financeira, onde estão os bancos e, claro, os cambistas. Há toda uma rede atuando na internet, no esforço de convocar multidões – mas o máximo que conseguirão será, como diz um bem humorado jornaleiro daqui do bairro, ‘multidinhas’.

A turma do barulho, em todo caso, está animada e continua convocando mais e mais panelaços. Pelo que se viu até agora, pode até ser que as próximas manifestações consigam reunir, num universo de umas cinco milhões de pessoas, um pequeno mas nutrido punhado de milhares de manifestantes, para gáudio e alegria da imprensa mais conservadora e dos correspondentes preguiçosos. Afinal, um cacerolazo rende sempre boas imagens, não importando a sua extensão e significado real.

O primeiro panelaço a gente não esquece. Aconteceu em Santiago do Chile, no fim de 1971, durante o governo de Salvador Allende. Nos bairros elegantes, senhoras convocadas pela ala mais à direita do Partido Democrata Cristão e pelos ultra-conservadores do movimento Patria y Libertad saíram às ruas para bater panelas, caçarolas e frigideiras vazias, reclamando da falta de comida.

Curiosas, aqueles manifestações de altaneiras senhoras que por algumas horas suspendiam até mesmo suas partidas de bridge para protestar. E, em parte, tinham razão: faltava quase tudo no Chile, graças ao boicote promovido pelos donos das empresas de transporte, generosamente financiados pelo governo dos Estados Unidos. Os que defendiam o governo de Allende primeiro debocharam do protesto das elegantes. Depois, quando surgiram homens e garotões em outros panelaços, a coisa ficou feia: houve choques violentos entre a direita recalcitrante e a esquerda de sangue quente, e muitas panelas e frigideiras foram transformadas em arma de combate, abrindo testas e estourando narizes.

O fenômeno do panelaço se repetiu na Argentina, um quarto de século depois, sem violência alguma: em setembro de 1996, em Buenos Aires e nas principais cidades do país, soou o primeiro cacerolazo, protestando contra a política econômica do presidente Carlos Menem. Não deu em nada, mas ficou registrada a estreia do novo tipo de protesto.

No final de 2001, a Argentina viu como o panelaço se transformou num formidável instrumento de pressão popular – e, atenção: realmente popular. Convocadas de boca em boca, de bairro em bairro, tendo como centro Buenos Aires, centenas de milhares de pessoas espalhadas por todo o país armaram dias seguidos de um barulho ensurdecedor.

Resultado: o pífio e insípido Fernando de la Rúa renunciou e literalmente foi-se pelos ares. No dia 20 de dezembro, um helicóptero zarpou do telhado da Casa Rosada levando-o de volta para casa.

De lá para cá, volta e meia alguém ensaia um panelaço em Buenos Aires. Nunca mais, porém, com a força coletiva e a expressividade daqueles dias de dezembro de 2001. É como se a banalização do protesto tivesse tirado seu efeito e sua graça.

Pois agora, e de novo, acontecem alguns panelaços em Buenos Aires. O primeiro deles, na noite da quinta-feira, 31 de maio, me tirou de casa. Quis ver como a vizinhança protestava. E o que vi foi altamente esclarecedor.

Pelas ruas de Palermo Viejo, o barulho era forte de verdade. Caçarolas, panelas, caldeirões, frigideiras pareciam ter ganhado vida própria. Soavam de maneira incessante. Só que não se via ninguém: as pessoas apagavam as luzes de varandas, terraços e janelas. A muito custo era possível distinguir, num sexto andar, um vulto de branco escondido no canto do terraço. Num quarto andar, e olhando com atenção, dava para localizar a janela da esquerda, escura e apagada, como a fonte do batuque de alguma coisa. Assim ao longo de quarteirões: o protesto era oculto, escuro.

Em algumas esquinas privilegiadas de Palermo, do Barrio Norte, do Botánico, de certas áreas de Belgrano e da Recoleta, bairros de gente bem posta na vida, havia algumas pessoas na rua, à luz dos postes e do comércio. Mas o que impressionava era caminhar pelas ruas paralelas: o panelaço vinha do nada. Vinha do oculto.

Na esquina da rua Güemes com a Vidt, de ares europeus, no quarto andar de um prédio em construção, havia luz, bastante luz. No que será a futura varanda de alguém de bom gosto, havia quatro homens jovens, perfeitamente visíveis e identificáveis. Olhavam para a rua com curiosidade. Nenhum deles fazia ruído algum. Não havia panela ou caçarola ou frigideira ou caldeirão em suas mãos.

Eram peões de obra. Moram aqui no bairro enquanto a construção não termina. Depois, voltarão para a periferia.

E tanto na periferia como nos bairros populares ninguém pensa em sair para as ruas num panelaço em defesa do sacrossanto direito das senhoras de Palermo, as que batem panela no escuro, comprarem dólares. 

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