martes, 2 de febrero de 2010

O conceito de qualidade na educação

Chegamos ao final da primeira década do século XXI e nossos gestores educacionais e seus consultores propalam fórmulas que parecem prato requentado ou mera transferência de técnicas empresariais de aumento de produtividade como soluções para um ofício peculiar. Falta de imaginação, talvez, ou discurso mercadológico de aceitação externa, o fato é que mais parece tentativa de excluir diretores, especialistas e professores do debate aberto sobre os rumos da educação, fazendo coro para envolver o grande público. Como se a saída para a educação fosse questão circunscrita à disputa da opinião pública, de mera formação de opinião. O que seria qualidade na área educacional?

Pelo discurso dos gestores públicos, as notas de avaliações sistêmicas, como Saresp, IDEB, Simave e outros. Seguindo esta trilha, a questão seguinte seria, por lógica, o que as avaliações sistêmicas deveriam investigar. Mas aí, topamos com um imenso silêncio. Hannah Arendt sugeria que a função da educação é a humanização, ou seja, a inserção dos educandos na humanidade, conformada por experiências plasmadas na linguagem, na escrita, na música, nas artes. A humanidade possui a memória dessas experiências transmitidas pela linguagem. Autores mais focados no sucesso individual sugerem que a qualidade da educação estaria centrada no progresso acadêmico ou de emprego-renda do educando.

Nossas avaliações sistêmicas partem de qual princípio? De um vago e generalizado desempenho dos educandos, sem que os não-gestores tenham qualquer condição de penetrar nesta fórmula mágica. Já temos ao menos duas décadas de experiências com avaliações sistêmicas externas a respeito do desempenho de nossos alunos. Mas pelos artigos e propostas apresentadas pelos gestores na grande imprensa, os avanços por eles promovidos foram pífios. Não chegaram a sinalizar os rumos a serem seguidos para a qualidade e sucesso tão propalados. Ao contrário. Dados recentes divulgados pelo IPEA indicam que apenas 13% dos jovens entre 18 e 24 anos freqüentavam universidade em 2007. Grande parte deles foi aluno avaliado por um dos modelos não revisados até hoje. Trata-se da faixa etária mais vulnerável ao desemprego em nosso país.

Os dados oficiais revelam uma situação ainda mais grave: menos da metade dos adolescentes entre 15 e 17 anos cursavam o ensino médio em 2007. E as disparidades regionais e entre campo e cidade nos aproximam de uma calamidade pública: 57% desses adolescentes que vivem nas cidades brasileiras freqüentam o ensino médio, índice que despenca para 31% no caso dos que residem no campo. E aí começamos a desvelar o mundo real da educação, e não este pasteurizado e inatingível pelos resultados das avaliações sistêmicas: a taxa de freqüência dos que têm renda mensal superior a cinco salários mínimos é dez vezes maior que os que percebem até meio salário mínimo. Daí que o foco da avaliação de desempenho estar circunscrito à escola, não avaliando o impacto da condição das famílias na performance escolar, ser algo pouco inteligente. Daí sustentar que a melhora do desempenho de nossos educandos ocorrer a partir de premiação de professores em relação à performance escolar ser um gasto desnecessário e de pouca evidência de sua eficácia.

Sem articulação de políticas públicas que fechem o círculo da formação de nossas crianças e jovens, envolvendo escola, sua família e comunidade, todas iniciativas se aproximam de tentativa e erro dos nossos gestores. Talvez, esta é a motivação para se tornarem tão apaixonados pelas fórmulas que os cidadãos não-gestores não compreendem em sua totalidade. Daí porque vários se envolverem com articulações políticas e de conquista da opinião pública cujo mote é envolver todos pela educação como se fora uma mobilização sem base social, cujos líderes são sua própria base. Porque é uma aposta e não uma certeza.

O processo educativo envolve muito mais que avaliações meramente quantitativas focadas no educando. Envolve o consórcio de professores e educadores que contribuem para a formação cotidiana do educando. Envolve o impacto de pais que se têm hábito de leitura ou práticas esportivas, estimulam que seu filho acolha como seu hábito a leitura e o esporte. Algo que já se estudou e comprovou desde os anos 30 do século passado. Também sabemos que o perfil do dirigente escolar impacta decisivamente no desempenho de alunos. Mas as avaliações da moda no Brasil não conseguem articular estes inputs.

No máximo, apresentam dados frios que não auxiliam os educadores a compreenderem por qual motivo 30% dos seus alunos não sabem interpretar textos complexos, ao contrário do restante. E, assim, lançam mão da tradicional e equivocada aula de reforço, que repete fórmula que já se revelou equivocada anteriormente. E o mundo gira, sempre no mesmo sentido. Enfim, marketing e educação nunca foram bons aliados. Educação não vive limitada às boas intenções. Trata-se de um tema lastreado em estudos e pesquisas que não geram respostas fáceis.

Por RUDÁ RICCI

Sociólogo, Doutor em Ciências Sociais, do Fórum Brasil de Orçamento, consultor do sindicato dos trabalhadores na educação de Minas Gerais e sindicato dos especialistas de educação do ensino público municipal de São Paulo.

Blog: http://rudaricci.blogspot.com/

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